Da técnica ao propósito – por José Bezerra
O desejo brota e não sabemos o porquê.

Cedo ou tarde – neonato ou maduro – o grito ecoante da matriz imagética lateja no ser e o preenche com desejo.
Diante dos lampejos sutis e românticos, somados as nossas frustrações, nos rendemos à técnica.
A matemática previsível e bruta dos equipamentos flanqueia aqueles que estão começando.

Por isso, em suma, deixamos a fantasia e começamos a domar esta “fera” eletrônica.

Até que a fera torne-se bela é preciso conceber prática paciente e contemplativa das situações várias.
Paisagens, construções, flores e insetos, pássaros pessoas e algum outro pormenor cabe em nossas composições.
Neste instante, o entusiasta atinge seu ponto de maior flexibilidade.

Costuma afirmar que fotografa tudo.

Tudo, digo-lhe, é muita coisa.
E ao mesmo tempo nada.

Aos poucos tomamos nota de que é preciso pôr o pé na estrada. Cruzar cercas para romper fronteiras.
Uns vão ao longe, outros observam os arredores. Todos na procura por uma aldeia a ser cantada.
Uns buscam conscientes, outros não.

Costumo crer que a complexidade contida no olhar individual não advém da técnica. Apesar de que, conhecer a técnica nos faz vislumbrar possibilidades que outrora não perceberíamos.

Entretanto, a essência imagética do olhar existe mesmo naqueles indivíduos sem relação com a fotografia.
Creio na existência de fotógrafos que não enxergam, assim como “não-fotógrafos” com percepção de águia.
O que faz este não-fotógrafo perceber mesmo não possuindo a necessidade do registro?
E porque o detentor da técnica e motivo não está livre das dificuldades em conseguir registro expressivo ou icônico?
Podemos atribuir boa parte da força de um registro quando sabemos qual o nosso propósito? O que buscamos alcançar?
Quando focarmos no propósito, a técnica já não deve interferir.
Ela é parceira da jornada onde as perguntas e respostas brotam internamente no ser, jamais na coisa. É preciso introspecção, reflexão.
Uma voz que nunca ouvimos antes surgirá. Ela é som que nos guia no caminho. Os sonhos retornam, a criança volta a correr. O barulho torna-se vibração. O olhar aprofunda-se. Volta-se para dentro. Fomentamos distância no desejo de conseguir perceber o que outrora não nos pertencia.

Propósito é pertencimento.

No perceber, carece reatar laços.
Criar tantos outros.
De modo este, o belo se anuncia.
Ecoa até ir de encontro aquele que espia.
Aquilo que causa estranhamento e reverbera em nossas mentes, deleita a vista.
Portanto, reside no refinamento do propósito, a base para uma técnica sólida e útil.

Técnica não é voz. Instrumento não tem voz.

Eles não falam, apenas traduzem aquilo que está cheio nosso coração.
Está no propósito a nossa afirmação.
Vestígios de nossa passagem.

Texto de autoria de José Bezerra – Fotógrafo Documental

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